2# ENTREVISTA 8.4.15

CINDY DIER - "TERAPIA PARA MARIDO AGRESSOR  IGUAL A TRATAMENTO ANTI-DROGAS"

Especialista em violncia domstica, a ex-diretora do departamento de Justia americano veio ao Brasil treinar juzes, policiais e advogados e diz que crimes cometidos por quem as mulheres amam s sero detidos em aes conjuntas
por Gisele Vitria 

DESAFIO - "Esse tipo de crime  complexo e difcil de investigar. No tem pas nem classe social"

Criada no Texas, a promotora americana Cindy Dier, 47 anos,  uma mulher sensvel. Casada e me de dois adolescentes, ela sabe usar essa virtude como uma fora. Diante dos tribunais mais severos, Cindy  capaz de identificar quando uma mulher est em perigo e precisa de ajuda, mesmo que oua o contrrio. At 2009 ela foi diretora do departamento de Justia dos Estados Unidos na rea de violncia contra mulheres, nomeada pelo ex-presidente George W. Bush. Trabalha com violncia domstica e sexual h mais de 14 anos e h seis anos  vice-presidente de direitos humanos da Vital Voices, ONG americana criada por Hillary Clinton quando era primeira-dama americana.

"O homem agressor usa a violncia de forma pensada. Ela  um de seus meios de controle na relao"

Na semana passada, Cindy esteve no Brasil com uma misso: liderar um workshop de trs dias organizado pelo Instituto Avon com objetivo de treinar e aprofundar o conhecimento de cerca de 70 juzes, promotores, advogados e assistentes sociais brasileiros em casos de crimes de agresses domsticas contra mulheres. Os desafios so grandes, mas ela v avanos na causa, ainda que hoje a (Organizao Mundial de Sade (OMS) aponte que 30% das mulheres agredidas no mundo foram vtimas da violncia de seus parceiros. Cindy Dier falou com exclusividade a ISTO.

"A Lei Maria da Penha (foto)  uma grande lei de combate  violncia domstica.  referncia mundial. A ideia  que ela saia do papel e seja de fato aplicada" 

Isto - Qual foi o objetivo deste treinamento no Brasil?

Cindy Dier - O Brasil tem uma grande lei de combate  violncia domstica.  uma referncia mundial porque inclui o foco no s  punio. Ela oferece outros servios para proteo a vtima. A ideia  que essa lei saia do papel e seja aplicada em todas as suas possibilidades.

Isto - A lei Maria da Penha tem 9 anos e observa-se um aumento de at 18% de casos de violncia contra a mulher. Isso prova que lei no muda comportamento?

Cindy Dier - No h mgica. O processo de mudana exige tempo, mas  poderoso. No Brasil, o aumento de casos pode ser atribudo a mais boletins de ocorrncia e  demonstrao de que mulheres esto denunciando crimes, o que talvez no acontecesse tanto antes. Nos Estados Unidos, o departamento de estatsticas registrou um declnio de 64% dos casos de violncia cometida por parceiros ntimos entre 1993 e 2010. A razo da queda se deve ao trabalho de ao coordenada aps a promulgao da lei americana de proteo  mulher, de 1994. 

Isto - H preparo de juzes, delegados, promotores, investigadores no Brasil?

Cindy Dier - A resposta curta  sim. Conduzo esse treinamento em todo o mundo, incluindo Estados Unidos. Os 70 profissionais que estiveram aqui tm conhecimento, esto familiarizados e comprometidos em produzir efeitos com essa lei. 

Isto - E a resposta longa? So comuns relatos de despreparo no primeiro atendimento  mulher agredida. 

Cindy Dier - Isso foi um dos problemas discutidos. Queremos encorajar os operadores de Direito (policiais, promotores, juzes) a ter a vtima no centro das suas medidas. No significa que um policial vai passar a ser um assistente social. Nem que um promotor tem que passar a ser um investigador. A questo no  voc dizer ao investigador como fazer o trabalho dele. Ele sabe fazer. O importante  que eles vejam, entendam e sintam porque devem levar esse processo to a srio. No queremos trazer receitas prontas, mas motiv-los e aparelh-los. A ideia  que eles trabalhem juntos para formar uma rede de segurana para a mulher. O fato  que esse  um crime de maior complexidade. No  fcil investigar nem fazer o processo legal. A violncia domstica  um crime diferente. 

Isto - Como define essa complexidade? Afinal, os criminosos so maridos...

Cindy Dier - As vtimas freqentemente amam seus agressores e abusadores. Elas detestam a violncia, mas gostariam de voltar ao tempo quando o agressor era um homem carinhoso. Essa mulher s vezes volta ou fica no relacionamento. Mas se sabe, na maioria dos casos, que essa esperana  infundada. Temos que entender esse tempo delas. Se no forem bem atendidas e respeitadas na deciso de retomar a relao, no voltaro a procurar os agentes quando a violncia voltar. 

Isto - Como foi o treinamento aqui?

Cindy Dier - Trabalhamos casos que no so redondinhos: quando o B.O  incompleto, quando h testemunhas que no querem se envolver. Algumas vtimas despertam simpatia, outras no so agradveis. As vtimas no contam direitinho tudo o que aconteceu, na ordem cronolgica. Deve-se considerar que a mulher est amedrontada. Ela se casou jovem ou nunca trabalhou. Ela no sabe se seria capaz de se sustentar ou a seu filho. So complicaes. 

Isto - Qual foi o caso que a senhora conduziu e que mais a impressionou?

Cindy Dier - Em 1994, no Texas, atendi como promotora uma mulher que denunciou um crime grave, mas depois voltou atrs. Isso aconteceu logo aps ter sido aprovada l uma lei anti-violncia  mulher. A moa estava aterrorizada por ter que testemunhar. Eu no poderia arquivar o caso. Esse marido tinha tocado fogo nesta mulher. Ele tinha queimado o cabelo dela, o rosto dela, tinha causado cicatrizes profundas e tudo isso na presena do beb de nove meses que eles tinham juntos. O ru nunca iria confessar o crime. Eu disse a ela: Eu no vou te chamar para testemunhar, mas terei que prosseguir. 

Isto - E como a senhora agiu?

Cindy Dier - Montei o processo como um caso de assassinato. O juiz me disse: Como voc levar esse caso a julgamento se a vtima no testemunha? Eu respondi: Ainda bem que vossa excelncia no pensa da mesma maneira em casos de vtimas de assassinato, que no podem comparecer.  Ele foi obrigado a rir e aceitou. Mas a maior surpresa estava por vir. No julgamento, o advogado de defesa do marido chamou uma testemunha. Pode imaginar quem era? A prpria vtima. Ela apareceu no tribunal de juri para dizer que tudo foi um acidente. Alegou que o marido tinha muito senso de humor e quis fazer uma brincadeira. Ela contou que ele despejou o fluido do isqueiro e jogou em cima dela de brincadeira, e tambm de brincadeira encostou o cigarro em seu rosto, que pegou fogo. 

Isto - E como a senhora se saiu?

Cindy Dier - Eu no faria nenhuma pergunta que fosse deix-la em perigo. Ento perguntei se ela ainda estava vivendo com o agressor, quem pagava as contas, quando foi a ltima vez que ela trabalhou, quem tinha trazido-a ao tribunal naquele dia. Em voz alta, eu disse a ela: Eu sei que o agressor est aqui sentado, ouvindo o que voc est dizendo. Perguntei quem iria lev-la para casa. Quem estaria com ela  noite quando a porta fosse trancada e ela fosse para a cama. Nos argumentos finais, disse aos 12 jurados: se vocs acreditam que hoje ela disse a verdade, sabendo que  noite estar sozinha com ele, devem inocent-lo. O veredicto foi unnime: culpado. E isso mudou o procedimento no Texas. A sentena foi de pena em regime aberto. Mas ele violou uma das condies e foi mandado para a priso por cinco anos. 

Isto - Como a senhora explica os dilemas femininos nessa hora? 

Cindy Dier - As mulheres querem que a violncia acabe mas desejam a famlia unida. At que  se convencem que a violncia no vai parar. Muitas no querem os agressores na priso. Primeiro, para no impedi-lo de trabalhar e sustentar os filhos. E para proteger seus filhos do estigma de ter um pai na priso. E a vem o momento difcil para a promotoria: atender esse pedido da mulher agredida ou colocar o criminoso em recluso para evitar que cometa o mesmo crime com outra mulher? Isso exige muita reflexo.

Isto - Por que uma quantidade to alta de homens agride suas mulheres e namoradas? Por que matam? 

Cindy Dier - So homens que tentam ganhar poder e controle sobre o relacionamento. E ns vemos uma escalada de violncia  e gravidade ao longo da sua vida. O processo se intensifica em perodos onde o agressor se sente inseguro ou tem medo que a mulher v deix-lo. H programas que tem tido sucesso na modificao de comportamento dessas pessoas. Uma terapia para marido agressor  similar ao tratamento anti-drogas.  igual e isso tem maior eficcia quando a pessoa sente que foi ao fundo do poo. No  tratar a raiva ou fazer terapia de casal. No  que a pessoa  meio esquentadinha que precisa aprender a se controlar. So homens que conseguem se controlar melhor do que qualquer outra pessoa. 

Isto - Qual  o perfil do homem que bate em mulher?

Cindy Dier -  um homem que usa a violncia de forma pensada. E isso  s uma das partes do sistema que ele criou para manter o controle. Quase sempre h o controle por meio das finanas. A agresso emocional. Ele define quem a mulher pode ver, que amigas ela pode ter, quanto tempo fica com a famlia. A violncia  um dos meios de controle.

Isto - Como evitar que certas mulheres se submetam a esse controle?

Cindy Dier - Cada mulher  diferente. Elas tm que passar pelo seu prprio processo. Uma dos modos de ajudar a vtima  mostrar o padro de evoluo da violncia. Mostramos os efeitos que as crianas vo sofrer por testemunhar essa violncia. 

Isto - A presidente Dilma Rousseff sancionou a lei do Feminicdio, tornando crime hediondo o assassinato de mulheres decorrente de violncia domstica. Isso ser eficaz?

Cindy Dier - Lgico que  muito bom haver uma lei rigorosa para proteger mulheres de um crime to hediondo como o de ser morta por uma pessoa em quem ama e confia. Mas todo o esforo desses trs dias de treinamento  na preveno para que, idealmente, no seja necessrio que aplicar essa lei. O que queremos  atacar o problema desde o comeo, como qualquer doena. A punio  um pedao da lei, mas h outros.  vital penalizar o agressor e mostrar claramente que ele deve ser responsabilizado. Mas  preciso dar poder a essa mulher para que ela se sinta confiante e que saiba sair dessa situao. 

Isto - Mulheres mais poderosas esto imunes a violncia?

Cindy Dier - As mulheres precisam se tornar mais poderosas, mas no podem se iludir. Uma mulher no conseguir sozinha deter a violncia. Ela no controla a deciso de um marido de usar a violncia. O dono da deciso de agredir  o marido. Uma mulher mais confiante pode escolher sair dessa situao, mas no cabe a ela a responsabilidade de evitar a agresso. Ela no pode ter esse peso.

Isto - V no Brasil particularidades na violncia contra a mulher?

Cindy Dier - Na verdade, no. Sempre me surpreendendo: a violncia domstica  semelhante em todo o mundo. No tem Pas ou classe social.

Isto - Mais mulheres vo morrer vtimas da violncia domstica?

Cindy Dier - Mais mulheres sero feridas e mortas at o ponto que ns, como sociedade, declaramos decididamente que no vamos mais tolerar isso. Podemos dar uma virada nisso a partir de uma interveno decisiva ao primeiro sinal de violncia domstica.

